• Prof. Carlos Augusto Pereira dos Santos Possui Graduação em ESTUDOS SOCIAIS pela Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA (1990), Mestrado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (2000) e Doutorado em História Do Norte e Nordeste do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE (2008). Atualmente é Professor da UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAU - UVA. Leciona as disciplinas de Historiografia Brasileira e História do Brasil I e II. É tutor do Programa de Educação Tutorial - PET HISTÓRIA/UVA. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: militancia comunista, ditadura, cotidiano, cultura e trabalhadores urbanos. conheça o grupo de pesquisa Cidade, Trabalho e Poder. Clique Aqui
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Já reproduzimos nesse espaço, crônicas da historiadora cearense Isabel Lustosa. Hoje fazemos isso novamente visto a importância de aprendermos um pouco mais sobre a história da educação no Brasil. O nome de hoje é Anísio Teixeira e que seu projeto e seu legado sirvam de inspiração para as auridades educacionais do país.


Isabel Lustosa

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Anísio Teixeira (centro)
Anísio Teixeira
Dia desses encontrei por acaso na internet foto de Anísio Teixeira, entre Jorge Amado e Gilberto Freyre. Os três já maduros, grisalhos, na casa dos 50 anos. Estranhei um pouco aquele Anísio pois o que conheci bem, através das tantas imagens dele constantes dos arquivos de Pedro Ernesto Batista, foi o Anísio moço. Figura franzina, metida nuns ternos grandões, com os cabelos muito lisos, fixados pela força da gomalina, o rosto magro escondido atrás dos óculos de grau. Imagem típica de intelectual latino, assim era o jovem Anísio, recém-chegado da América do Norte, cheio de ideias arrojadas sobre educação.
Aquele Anísio que encontrou na vocação radicalmente democrática do prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, um aliado corajoso para a implementação de seu projeto educacional. Foi com Anísio Teixeira que se difundiram as bibliotecas de bairro e que se criou a Escola-Rádio, dirigida por Roquette Pinto. Foram construídas então, no Rio de Janeiro, 28 escolas, cada uma com capacidade para mil alunos. Espalhadas por todo o município, suas localizações foram definidas após cuidadosos estudos, privilegiando as áreas mais pobres. Em 1933, a primeira escola construída numa favela foi inaugurada no Morro da Mangueira. O Instituto de Educação formou, durante aqueles quatro anos, 800 novos professores dentro do espírito da Escola Nova. A sofisticação dos cursos do Instituto era tanta que se chegava a exigir pleno conhecimento de francês e inglês dos futuros professores primários. O nível destes, com o aprimoramento dos cursos do Instituto de Educação, alcançou padrão universitário.
Este mesmo Anísio que aparece nas dezenas de fotos arquivadas no CPDOC-FGV, inaugurando escolas em Bangu, Campo Grande, Olaria, Marechal Hermes. Realizando, enfim, pela primeira vez na História do país, um projeto de efetiva democratização do ensino. Anísio não entendeu o recado violento da reação e recusou-se a implementar, por considerá-la avessa ao projeto de uma escola democrática e laica, a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas, pela qual se batiam os setores mais conservadores da Igreja Católica.
Curiosamente, o Anísio que brigava com a igreja nos anos 1930, quase se tornara seu sacerdote nos anos 1920. Clarice Nunes, em "Anísio Teixeira: a poesia da ação", revela o conflito em que se debateu a sua alma entre as atrações do mundo da política e a vida sacerdotal. Narra também o choque que foi para ele, no final da década de 1920, a descoberta da América. Choque que eliminou o sacerdócio como alternativa mas que revelou o caminho para um outro sacerdócio, a serviço da educação. Educação para a democracia.
Em Nova York, Anísio tornou-se íntimo de Monteiro Lobato - então adido comercial do Brasil nos Estados Unidos - e de sua família.. Pela correspondência que mantêm, depois do retorno de Anísio, percebe-se que ele se tornou algo assim como o darling de toda a família Lobato. Todos morem de saudade dele. Todos relembram o companheiro insubstituível, sua prosa admirável.
É assim também que dele se recordavam os filhos de Pedro Ernesto: Odilon e Iolanda Baptista. Em fotos do álbum de família aparecem o jovem e atlético Odilon ao lado do franzino Anísio. Os dois, de calção, jogam nas águas do mar do Recife uma rede que a incompetência dos pescadores teima em trazer vazia. Foi durante uma viagem, naquele fatídico ano de 35. Pedro Ernesto, então prestigiadíssimo, foi com a família e alguns secretários assistir à posse do governador de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti. A bordo, nas fotos da viagem, aparece o grupo bronzeado e alegre: Pedro Ernesto, sua mulher, d. Evangelina, Iolanda, Odilon, Anísio e Emília. São fotos de uma gente feliz. Durante a viagem, o navio foi sobrevoado pelo dirigível Hindemburgo, numa homenagem ao prefeito do Rio.
Em meados de 1935, aquele rapaz míope e franzino, marcava o seu tento mais ambicioso: coroava a sua obra inaugurando a Universidade do Distrito Federal. Uma universidade sem prédio, sem instalações adequadas e que, no entanto, tinha em seu quadro importantes professores de universidades estrangeiras, além da prata da cada: Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, José Maria Bello, Jorge de Lima, Álvaro Vieira Pinto, José de Castro, Afonso Arinos de Melo Franco, Arnaldo Estrela, Lúcio Costa...
A UDF tinha um currículo absolutamente inédito para os padrões da universidade brasileira: cursos de urbanismo, arquitetura paisagista, drama e cinema, arquitetura cenográfica, bailados, além de outros mais sisudos, porém igualmente inovadores como os de filosofia e história do pensamento, filologia, literatura e sua história, jornalismo e publicidade, biblioteconomia e arquivo. A contratação de professores comunistas como Hermes Lima, Castro Rabelo e Leônidas Rezende, contribuiu para reforçar a identificação de Anísio como comunista e forneceu o motivo para a perseguição que sofreria depois.
As conseqüências do desastrado levante comunista de novembro de 1935 foram trágicas para os que, naquela década, não somavam com as correntes mais conservadoras. Em 2 de dezembro, Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto (então reitor da UDF) e boa parte de seus colaboradores, que haviam se transformado no alvo predileto dos que queriam derrubar Pedro Ernesto, apresentaram suas cartas de demissão. Alguns foram imediatamente presos. No lugar de Anísio, assumiu a Secretaria de Educação o ex-ministro Francisco Campos. Foi o fim do sonho.
Neste momento em se procura recuperar da degradação a que foram submetidos, nos últimos 40 anos o ensino público primário e secundário, estabelecendo um piso salarial decente para seus professores, vale a pena lembrar o projeto que Anísio Teixeira tentou implementar no Rio de Janeiro dos anos 1930.

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