• Prof. Carlos Augusto Pereira dos Santos Possui Graduação em ESTUDOS SOCIAIS pela Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA (1990), Mestrado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (2000) e Doutorado em História Do Norte e Nordeste do Brasil pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE (2008). Atualmente é Professor da UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAU - UVA. Leciona as disciplinas de Historiografia Brasileira e História do Brasil I e II. É tutor do Programa de Educação Tutorial - PET HISTÓRIA/UVA. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: militancia comunista, ditadura, cotidiano, cultura e trabalhadores urbanos. conheça o grupo de pesquisa Cidade, Trabalho e Poder. Clique Aqui
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Repassando um belo conto inspirado nos acontecimentos últimos sobre a luta de estudantes no Campus da USP, enviado pela colega Maria Antônia.

NATAL NO CAMPUS
     
Quando a tropa invadiu o campus, uma nuvem tomou o nascente e cobriu de sombras a cidade universitária.
A noite tinha começado bela. A lua cheia derramava branda luz azulada sobre a copa das árvores. Os ipês vestiam-se de folhagem roxa e amarela, fora de época. As cercas vivas, que ladeiam os jardins da reitoria, pareciam um tecido de chita. Era dezembro, de brisa paulistana.
No pavilhão central, estudantes, professores e gente da comunidade festejavam a posse do território. Alternavam discursos, música, teatro. Clowns tropeçavam nas gargalhadas da assistência. Um físico falava da apropriação da ciência pelas corporações e o aparte foi concedido a um sociólogo, que denunciou os tempos de autoritarismo e guerras. Alunos da escola de artes e militantes sociais revezavam, declamando Drummond, Pessoa, Benedetti...
Não que não se desconfiasse, mas o anúncio caiu como chumbo sobre as cabeças. Dos transmissores da rádio livre, instalada no alto do torreão da entrada, o locutor falou em voz pausada e pesarosa: “Amigos estudantes... Companheiros professores... Lutadores do povo... Com preocupação, anunciamos que um comboio militar acaba de adentrar o campus”.
A fuligem pareceu condensar-se no céu e uma sombra cobriu o campus.
Homens em formação de três colunas avançaram rumo ao pavilhão, acompanhados em terra por cães farejadores e, no alto, por atiradores de elite, num helicóptero. No palácio do governo, cascatas de luzes resplandeciam numa festa preparada para a ocasião. O chefe da guarda recebia e transmitia às autoridades informações precisas sobre a operação “natal no campus”.
A luz foi cortada e a tropa já iniciava a desocupação, quando Maria, estudante de Pedagogia da Terra, entrou em trabalho de parto. Ao seu lado, José, liderança dos círculos bolivarianos e estudante de Agronomia, bradou: “Compañeros, necesito ayuda aquí. Mi hijo va a nacer”. E, exultante, arrematou:  “que él vienga a vivir con dignidad y luchar junto a nosotros por la libertad”. Um professor de medicina rasgou caminho na multidão, dirigindo-se ao casal e gritando em tom imperioso: “Acendam as luzes! Organizem um círculo! Protejam Maria e José!”.
Lanternas e isqueiros foram acesos, formando imensa ciranda de luzes. Por fora, vis a vis com os coturnos, formou-se um tapete de mulheres deitadas ao chão. No centro, acalorada discussão entre o catedrático de medicina, residentes, estudantes de enfermagem e duas parteiras do povo que lá estavam. Os gemidos iam e vinham ao ritmo das contrações.
Um soldado, com treinamento em primeiros socorros, desvencilhou-se do escudo e do coldre e correu para ajudar. Hesitando entre a honra e a obediência, o comandante suspendeu a operação e ordenou a retirada da tropa para os arredores do campus.
Como num mistério, o nevoeiro desfez-se e a lua mostrou-se em toda sua majestade no centro da esfera celestial. Pendurada no firmamento, uma estrela solitária parecia querer beijar a terra. Do alto do torreão, o fato era transmitido para as comunas urbanas e assentamentos dos arredores da cidade.
Não tardou para que a noite fria fosse invadida por caravanas que se dirigiram à cidade universitária. Os assentados da terra trouxeram frutas da época e ervas aromáticas; os operários das fábricas ocupadas, tecidos de algodão. Dos currais da faculdade de veterinária, tangeram, até o local, um casal de bovinos e duas ovelhas.
Sinos já se faziam ouvir alhures quando o relógio da praça central marcou meia noite. O tempo pareceu suspenso, tão profundo o silêncio e a inércia da assembleia; era como que aguardassem a realização da profecia. Foi quando a criança veio à luz, silenciando apenas quando a segunda anunciou-se com estridente choro. “Gêmeos!”, gritou em uníssono a brigada que assistia a mãe.
Enamorado, José abraçou e beijou Maria; depois, com a ajuda do soldado, ergueu as crianças bem no alto e proferiu: “Bienaventurados los hijos del pueblo, porque el futuro les pertence a ellos”.
A madrugada iniciou embalsamada com o cheiro das frutas, dos incensos e ervas raras trazidas de longe pelos lutadores do povo. A assembleia fora restabelecida nas primeiras horas de 25 de Dezembro. E quando os raios de sol atingiram o torreão da entrada, uma estudante de jornalismo transmitiu em ondas curtas: “Com profunda alegria, anunciamos que a polícia deixou a cidade universitária e a assembleia declarou o campus território livre. Informamos também que, a zero hora, Maria deu à luz duas crianças, filhas de José. Por decisão da assembleia, os bebês receberam o nome de Florestan e Maria de Jesus, filhos do povo”.
E toda a cidade acordou com a música O Cio da Terra transmitida pela rádio clandestina.

                                                          Para os companheiros da USP.
Epitácio Macário
Prof. de Economia Política da UECE
Coord. Centro de Estudos do Trabalho e Ontologia do Ser Social - CETROS

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